123ª Romaria de Caravaggio - Maio/2002

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22 de maio de 2002

"DAMAS E CAVALHEIROS DE CARAVAGGIO"

     Uma visão do autor do livro "Por uma graça alcançada", Vitor Tonollier, sobre a 123ª Romaria ao Santuário do Caravaggio, resultado da fé e devoção de cerca de 190.000 peregrinos:

     Se eu fosse um turista estrangeiro, desses que olham o Brasil pelo prisma europeu - de sermos todos uns subnutridos, alegres e felizes incompetentes - eu diria que a Romaria de Nossa Senhora do Caravaggio não tem nada a ver com o Brasil, pelo estereótipo que se conhece.

     Observem bem: aquela imensa massa humana não é o que se espera que represente o grosso da população brasileira. Não são desnutridos, esqueléticos, não falam alto, não praguejam, não carregam cruzes de quinhentos quilos às costas para pagar os pecados que nunca existiram ou para pedir que chova no sertão do Cariri. Pelo contrário, um simples olhar - mesmo o olhar local - confirma que noventa e nove por cento do povo que chega aqui é bem alimentado, bem ou mais ou menos bem vestido (pelos padrões brasileiros), sabem ler e escrever e dispõem ao menos de alguns trocados para a viagem. Não pedem chuva, frentes de trabalho ou vingança contra o sujeito que afrontou a sua filha. Nada disso.

     Fazendo olhar de estrangeiro, minhas primeiras impressões de Caravaggio, a Romaria, seriam estas: um povo sereno e ordeiro, muitos jovens - homens e mulheres - e uma multidão disciplinada colocando o lixo nas cestas dos lixos, comportando-se com civilidade (porque podem, é claro, se não pudessem agiriam como quaisquer bárbaros), falando baixo, andando ordenadamente, pedindo desculpas, sem atropelos, sem exaltações, sem nada que os diferenciem de uma multidão comum em uma cidade civilizada de qualquer nação que tenha essa pretensão nos quatro cantos do mundo. Eu diria mesmo que em Caravaggio só avistei cavalheiros e damas - no bom sentido, no sentido lato, aquele que se entende ser o autêntico cidadão: discreto, respeitador e respeitado, cônscio dos seus direitos e dos seus deveres e com aversão por escândalos ou cenas espetaculares.

     Talvez seja isso que atraiu a atenção do meu falso olhar estrangeiro: os fiéis e mesmos os não tão fiéis, os diletantes e os turistas ocasionais que vão à Romaria são uns amores, no perfeito sentido da palavra, e sem qualquer ironia. Estive na romaria durante todo o domingo e o que vi - bem ao contrário do que constatei em outras devoções em outras partes do País - é uma imensa massa humana que estava ali para rezar, para pedir graças, para pagar votos, para passar o tempo, para confraternizar em família, para ter o seu sagrado lazer de domingo e depois voltar para casa e reiniciar na segunda mais uma semana de trabalho. Não vi uma só cena de violência e muito menos - e olhe que circulei - qualquer cena de mau humor escancarado, de irritação exacerbada, de presunçosa intimidade com terceiros, de tentativa de exploração. Ninguém me pisou o pé, ninguém me empurrou, ninguém tentou me aplicar o conto do vigário. Mesmo os vendedores ambulantes - uma categoria complicada - mantinham-se nesse clima educado e não forçavam a barra, para a Glória de Deus e da padroeira.

     Com certeza isso - a reserva educada, o respeito, a ordem, a boa disciplina - é uma das características do povo da serra, ou talvez do gaúcho, ou talvez do povo dos três Estados do Sul, e isso certamente diferencia Caravaggio de outros locais de devoção religiosa no Brasil. Simples peculiaridade que não altera a essência em si - mas uma boa peculiaridade, aquilo que hoje é surradamente chamado de "cidadania" e pode ser exatamente traduzido assim. Pois a Romaria de Caravaggio é um exemplo disso - de cidadania, perfeita cidadania. Uma Festa praticamente sem confusões, na qual os direitos são respeitados e o organograma funciona perfeitamente bem, tirando uma ou outra exceção insignificante.

     Outra coisa que pode ser facilmente notada: a massa - a tal "imensa massa humana" - que comparece todos os anos a Caravaggio está longe de ser uma massa que se queixa da vida ou pede perdão por coisas passadas (na real quem terá de dizer isso são os padres). Eu diria até que, no restante do ano, vão ao Santuário muitos mais sofredores e muita gente sem rumo do que no período da Romaria. Porém o que vi desta vez - e posso estar enganado - é muita gente agradecendo pelas conquistas, das mais pequenas às maiores possíveis, e pedindo que Nossa Senhora lhes dê coisas ainda melhores no futuro. Considerando os tempos, um sinal de que, se estamos longe de ser Primeiro Mundo, já não somos - vocês aqui da Serra - o Terceiro Mundo.

Vitor Tonollier

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